História de Maria Montessori e seu método.

Escrito por Gabriel Salomão

Maria  Montessori é nossa  precursora. Ela resumiu sua vida em uma  frase, sucintamente relembrada por seu neto, Mário Montessori Jr.:       

“Eu descobri a criança“. Ela é mundialmente conhecida por ter criado o método Montessori (chamado por ela de Pedagogia Científica) e ter revolucionado a forma como a criança é compreendida e respeitada. Em quase todos os países do mundo há escolas montessorianas e diversas iniciativas educacionais revolucionárias tiveram

suas bases nas descobertas de Montessori.

 

Nascida  em  1870,  em  Chiaravalle,  Itália,  Maria  Montessori,  não  decidiu  cedo  que  seria educadora. Na verdade, até o final de sua graduação, estava decidia a seguir outras carreiras. Quando   adolescente,   apaixonada   por   Matemática,   escolheu   cursar   o   ensino   técnico   de Engenharia e, com o apoio da mãe e as reticências do pai, foi uma de duas garotas em uma escola frequentada exclusivamente por meninos. Terminou o curso com sucesso, mas então já estava decidida, para alívio de seu pai, a abandonar a Engenharia. Apaixonara-se, no entanto, por biologia, e decidira ser médica.

Novamente  sua  mãe,  que  tinha  ares  feministas  e  desejava  que  sua  filha  tivesse  uma  boa carreira,  apoiou  sua  decisão.  O  pai  não  a  impediu,  mas  não  a  apoiou  no  início.  Houve necessidade de se conversar com o reitor da universidade para que uma mulher pudesse fazer o curso. Ao contrário do que se pensa, Montessori não foi a primeira mulher a se formar médica na Itália, mas a terceira. Isso, entretanto, não diminui em nada seu mérito. Foi a segunda mulher a exercer a profissão de médica na Itália e durante toda a graduação sofreu a segregação típica da sociedade da época.

Entre os problemas enfrentados no curso superior de Medicina, um dos piores eram as sessões de dissecação, que ela precisava fazer sozinha, à noite, pois não podia executá-las junto com os homens  da  sala.  Em  uma  de  suas  experiências,  em  uma  sala  abafada,  abria  um  cadáver circundada  por  esqueletos  e  partes  humanas  conservadas  in  vitro.  O  cheiro  do  corpo  que estudava a deixou tonta, e Montessori olhou em volta, com terror. Segundo ela, neste momento quase desistiu de ser médica. Para respirar um pouco de ar, foi até uma das janelas da sala, e quando lá estava, avistou na rua uma senhora caminhando, provavelmente para casa, e pensou que desejava de fato ter uma profissão diferente do magistério – destino de todas as mulheres que não se conformavam em tomar conta de casa. Consta que retornou então ao cadáver que estudava e não pensou novamente em abandonar sua carreira.

Formada,  em  10  de  julho  de  1896,  Dr.ª  Montessori  foi  trabalhar  na  Psiquiatria.  Em  diversas visitas  a  asilos,  percebeu  que  o  tratamento dispensado  às  crianças  era  desumano  e, em  sua busca por compreender as crianças e seu desenvolvimento, chegou aos escritos de Itard, acerca de  Victor,  o  Menino  Selvagem  de  Aveyron.  Suas  pesquisas  sobre  Itard  a  levaram  a  Séguin, estudioso das crianças portadoras de necessidades especiais e dos tratamentos que podiam ser dispensados a elas. Montessori encantou-se sobremaneira com as informações de Séguin sobre a sensibilidade sensorial da criança pequena e com os materiais que o pesquisador havia desenvolvido.  Tão  encantada  que,  manualmente,  traduziu  todo  um  livro  de  Séguin  para  o italiano, afim de absorvê-lo em sua completude. A partir do estudo da obra de Séguin surgiram muitos  dos  que  seriam,  mais  tarde,  os  materiais  de  desenvolvimento,  utilizados  em  salas montessorianas por todo o mundo.

Aos vinte e oito anos, Montessori defendeu no Congresso Médico Nacional, em Turim, a tese de que a causa principal dos atrasos apresentados pelas crianças portadoras de distúrbios de comportamento   e   aprendizagem   era   o  seu   ambiente  ausente   de   estímulos   para   o desenvolvimento  adequado.  Data  deste  congresso  uma  das  histórias  famosas  da  vida  de Montessori.  Conta-se que, tendo terminado sua exposição, um médico da plateia pede a palavra e lhe pergunta: “Por que preocupa-se a senhora com estas crianças? Não sabe que elas não podem aprender?” – ao que Montessori respondeu: “Elas podem! São os senhores que não permitem”. No ano seguinte, ainda, apresentou, no Congresso Nacional de Pedagogia uma visão social e econômica baseada em medidas educacionais.[1]

Montessori envolveu-se  com a Liga para a Educação de Crianças  com Retardo (por forte  que hoje  nos  pareça  o  nome,  à  época  não  seria  considerado  assim)  e  lá  conheceu  o  médico Giusseppe  Montesano,  com  quem  foi  escolhida  para  a  co-direção  de  uma  nova  instituição:  a Escola   Ortofrenica. Ortofrenia é   o   nome   que   se   dava   aos   processos   de  tratamento   das necessidades especiais apresentadas pelas crianças. Nessa instituição, o trabalho prioritário era o  treinamento  de  professores.  Porém,  na  sala  ao  lado  daquela  destinada  ao  treinamento, ficavam  as  crianças  retiradas  do  asilo  por  Montesano  e  Montessori,  e  que  eram,  ao  mesmo tempo, alunas e objetos de pesquisa.

Nesta  sala,  Montessori  observou  que  as  crianças  se  interessavam  por  qualquer  coisa  que pudessem  sentir,  com  qualquer  um  de  seus  cinco  sentidos.  Lembrando-se  bem  do  que aprendera com a obra de Séguin, Montessori emprega os materiais sensoriais do pesquisador, somados a algumas  inovações  suas. Por observação das crianças, Montessori aos poucos desenvolveu alterações nos materiais originais e criou diversos outros, novos.

Por meio da utilização desses materiais, as crianças internadas na escola aprenderam tanto e  se  desenvolveram  tão  bem,  que  Montessori  sentiu-se  confiante  para  inscrevê-los  nos testes  nacionais  de  educação  da  Itália.  E  nos  exames,  os  alunos  de  Montessori,  que enfrentavam  as  mais  variadas  dificuldades  para  aprender,  se  saíra  melhor  do  que  boa parte  da  população  infantil  italiana,  que  tinha  a  cognição  perfeita  e  era  educada  em escolas normais.

Abismada  diante  do  absurdo  quadro  à  sua  frente,  Montessori  pergunta-se  o  que  há  de  tão errado com as escolas tradicionais, para que crianças que teriam tudo para obterem resultados excelentes nos testes se saíssem com resultados piores do que os de suas crianças, para quem todas as atividades apresentavam imensos desafios. Assim, Montessori, que já havia cursado Pedagogia  neste  meio  tempo,  decide  dedicar-se  integralmente  à  Educação  –  a  carreira  que evitara desde menina.

Em 1901, Montessori deixou a Escola Ortofrenica e começou a estudar com maior profundidade a pedagogia e a antropologia, até que em 1904, assumiu o posto de professora da Escola de Pedagogia da Universidade de Roma, onde fica até 1908.

Quase  no  fim  de  seu  período  como  docente,  surge  a  oportunidade  pela  qual  esperava  para trabalhar com crianças cujo desenvolvimento não apresentava nenhuma característica especial, para  poder  testar  sua  intuição  acerca  do  aprendizado  por  meio  dos  sentidos. 

 

Em  1907,  uma empreiteira associada ao governo de Roma está construindo um conjunto habitacional popular no bairro pobre de San Lorenzo, e percebe a necessidade de se confinar as crianças em um espaço determinado, para que não sujem, pichem ou estraguem a obra comprada pelo poder público. Assim, Montessori é convidada para desenvolver o projeto educacional do local.

Era para ser uma creche sem maiores pretensões, mas a Casa dei Bambini (literalmente Lar das Crianças)  iria  se  mostrar  o  palco  da  maior  revolução  educacional  do  mundo.  Na  Casa,  havia mobília  de  escritório  cujas  pernas  Montessori  mandara  cortar,  para  adequar  ao  tamanho  das crianças,  e  –  trancados  em  um  armário  –  ficavam  os  materiais  sensoriais  desenvolvidos  por Montessori. Quando houve materiais suficientes para que todas as crianças pudessem usá-los todo  o  tempo,  elas  se  acalmaram  e  mostraram-se  absolutamente  concentradas,  tranquilas  e felizes. Depois de algum tempo na Casa, Montessori aceitou, sob pressão dos pais das crianças, ensiná-las a escrever por seu método e, para sua surpresa, aprenderam tão bem que, um dia, descobriram  sozinhas  que  “sabiam  escrever”  e  sairam  pelos  quarteirões  de  San  Lorenzo escrevendo no chão e nas paredes.

Aos  dos  fenômenos  educacionais  acima,  Montessori  chamou  “Normalização”  (chamado  hoje de  Equilíbrio  Natural  da  Criança,  por  nós)  e “Explosão  da  Escrita”.  As  duas  descobertas  a deixaram boquiaberta e a levaram para as capas dos jornais e revistas de todo o mundo. Com dois  anos  de  Casa,  em  1909,  Montessori  vai  passar  vinte  e  um  dias  em  uma  fazenda  nas proximidades de Roma  e lá, escreve "O  Método da Pedagogia  Científica  Aplicado à Educação" Infantil na Casa das Crianças.[2]  Obra de cunho absolutamente acadêmico e analítico, na qual Montessori   expõe,   pela   primeira   vez,   seu   método   completo.   Em   português   o   livro   se chama "Pedagogia   Científica" e em  inglês foi traduzido para o termo que se eternizaria, entitulado " O Método Montessori".

Daí  em  diante,  seguem-se  viagens  pelo  mundo,  nas  quais  Montessori  ministra  cursos  e palestras sobre seu método, espalhando por todos os lugares as descobertas que fizera, abrindo escolas,  treinando  professores,  escrevendo  livros  e  publicando  artigos  e  entrevistas  por  onde passava.

 

Em 1912, foi para os Estados Unidos, para lecionar em Nova Iorque e Los Angeles. Em 1915, apresentou na Panama Pacific International Exposition uma sala Montessoriana com paredes de vidro,  dentro  da  qual  crianças  e  uma  professora  trabalhavam  tranquilamente.  A  sala  ganhou duas  medalhas  de  ouro  da  feira,  onde  eram  expostas  diversas  invenções  e  descobertas  do mundo todo.

  

Em  1916, foi  para  Barcelona  e  manteve-se  em  viagens  entre  EUA,  Barcelona  e  Londres  até

1918. Depois deste ano, não retornou mais aos Estados Unidos. Ao que se tem registro, no fim dos anos 1920, lecionava em Londres e continuava viajando

 

Em 1929, no primeiro Congresso Montessori Internacional, em Elsionre, Dinamarca, Montessori e seu filho, Mário, fundam a Associação Montessori Internacional. O objetivo da sociedade  era vistoriar as atividades de escolas e sociedades por todo o mundo e supervisionar o treinamento de  professores.  Entre  os  patrocinadores  iniciais  desta  Associação  encontravam-se  Sigmund Freud, Jean Piaget e Rabindranath Tagore –  o último, excelente poeta indiano e Prêmio Nobel de literatura.

Na Itália, seu método prosperava e Mussolini desejava absorvê-la para seu regime, dizendo até que “A Itália teve três grandes M, Mussolini, Marconi e Montessori”. Entretanto, ao mesmo tempo que   desejava   tê-la   a   seu   lado,   Mussolini   diminuia   a   liberdade   inerente   às   escolas montessorianas.  Isso  fez  com  que  a  educadora  deixasse  seu  país  natal  em  1934  e  todas  as escolas com seu método fossem fechadas lá – o mesmo aconteceu na Alemanha hitlerista, na União Soviética e na China ditatorial. Nessa fuga, foi para Barcelona, mas em dois anos, 1936, estourou a Guerra Civil espanhola e Montessori fugiu de lá também, dessa vez para a Holanda.

Permaneceu na Holanda durante algum tempo, até que em 1939 foi chamada para dar um curso na Índia. Ela foi, mas não pode voltar como previa. Ficou, como prisioneira do exército britânico, quando estourou a Segunda Grande Guerra. Seu filho foi enviado para um campo de internação forçada  até  que  no  aniversário  de  setenta  anos  de  Montessori,  no  ano  seguinte,  foi  solto,  a pedido de Montessori, por uma autoridade indiana. A educadora ainda teve de ficar na Índia por sete anos, no entanto, até 1946, quando pôde voltar.

Em 1947, com setenta e seis anos, Montessori falou para a UNESCO sobre “Educação e Paz” e em 1949 recebeu a primeira de três indicações ao Prêmio Nobel da Paz. Sua última atividade registrada é em 1951, com oitenta e um anos, quando participou do 9º Congresso Montessori Internacional. Em 1952, na Holanda, morreu de hemorragia cerebral, com oitenta e um anos, na companhia de Mário Montessori, seu filho, a quem deixou o legado de seu trabalho.

 

 

Fontes: Para a composição deste resumo biográfico, contamos com as informações cedidas durante o curso  de  formação do Centro de Educação Montessori de São Paulo 

Também foram utilizadas as seguintes páginas virtuais:

[1] Montessori Austrália – http://montessori.org.au/montessori/biography.htm

[2] Wikipedia – http://en.wikipedia.org/wiki/Maria_Montessori

Para saber mais sobre a vida e a obra de Maria Montessori:

Filmes: Maria Montessori - Uma Vida dedicada às Crianças (ed. Versátil)

Grandes Educadores – Maria Montessori